O Fim do Marketing de Superfície (The Future 100)
Vivemos num momento estranho. O mundo está em rutura política, climática e tecnológica. Ao mesmo tempo, as pessoas nunca quiseram tanto pertencer a algo, sentir algo, acreditar em algo. É desta tensão que o Future 100: 2026, um dos mais influentes relatórios globais de tendências de consumo, parte para mapear o que vai moldar marcas, marketing e comportamento nos próximos anos. Nós trazemos aqui o resumo para quem quer ficar a par das principais tendências.
A mensagem central é simples, mas incómoda: a superfície acabou. O consumidor de 2026 está exausto de campanhas polidas, promessas vazias e autenticidade performativa. O que procura, e recompensa, é presença real, transparência radical e marcas que tratam a ligação humana como estratégia, não como decoração. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial está a reescrever as regras do comércio de uma forma que a maioria das marcas ainda não percebeu. O relatório identifica tendências que vão desde uma nova estética visual assente no imperfeito, à economia das pequenas recompensas acessíveis, ao momento em que o comprador deixa de ser humano. É um briefing para quem quer continuar relevante, mas também um aviso para quem ainda está a jogar pelo manual antigo.
A estética do imperfeito como sinal de confiança
O primeiro sinal que o relatório lança parece “contraintuitivo”: a tendência estética de 2026 não é o polido, o limpo, o perfeito. É o Entropism, ou seja, uma linguagem visual que abraça o desgaste, a imperfeição. Num mundo em que a geração de imagens por IA produz visuais irrepreensíveis em segundos, o imperfeito tornou-se paradoxalmente o mais humano. E o mais credível.
Para as marcas, isto não é uma licença para o desleixo. É um convite a mostrar o que há por trás do produto: o processo, a falha, a revisão, a pessoa. Numa era em que tudo pode ser gerado, o que não pode ser fabricado é a verdade. Por detrás da estética do colapso, como o relatório observa, há regeneração. A questão é: a tua marca tem coragem de mostrar as costuras?
Autenticidade já não é um valor. É uma prova
Este é talvez o insight mais incómodo para marketers e gestores de marca: declarar-se "autêntico" é, em 2026, uma das formas mais rápidas de perder credibilidade. A confiança já não se constrói por afirmação, mas sim por evidência.
O que o relatório chama de Radical Transparency é uma exigência crescente por parte do consumidor: quero ver como fazes, com quem trabalhas, o que acontece quando corre mal. E especificamente num contexto em que o conteúdo gerado por IA prolifera, a prova mais irrefutável do "real" é tornar os próprios clientes parte da história, através de co-criação, iniciativas lideradas pela comunidade e participação visível. A autenticidade já não pode ser uma reivindicação de marketing. Tem de ser uma prática verificável.
Para equipas de comunicação, isto muda tudo: o trabalho não é criar a mensagem perfeita. É criar as condições para que a verdade da marca seja visível, mas principalmente, verificável.
Quando o comprador é uma máquina
Uma das tendências mais disruptivas do relatório, mas das menos discutidas, é o que designam de Acommerce, ou comércio “agêntico”. Em breve, uma parte crescente das decisões de compra não será tomada por pessoas, mas por agentes de inteligência artificial que operam em nome dos utilizadores: comparam, avaliam e compram com base em critérios pré-definidos, como preço, origem ética, sustentabilidade, fiabilidade.
O que isto significa na prática? Que o trabalho de persuasão — o copy emocional, o visual apelativo, o storytelling — passa a ter um novo destinatário: o algoritmo. A marca que não for "machine-readable", que não tiver os seus dados de produto estruturados, os seus valores mensuráveis e verificáveis, vai simplesmente desaparecer dos resultados. Não por falta de qualidade — por falta de legibilidade.
É uma mudança de paradigma que ainda está a chegar devagar, mas quando chegar vai ser rápida. As marcas que começarem já a pensar nisto vão ter uma vantagem competitiva considerável.
A economia das pequenas recompensas
Num contexto de incerteza económica, o relatório identifica uma tendência que deveria estar no centro de qualquer estratégia de comunicação: o Treatonomics. As pessoas, mesmo quando estão financeiramente pressionadas, continuam a reservar espaço para pequenas indulgências que lhes devolvam um sentido de controlo, alegria e normalidade.
Para as marcas, isto é uma oportunidade concreta: não se trata de vender barato, mas de posicionar produtos e serviços como momentos de recompensa acessível. A narrativa de "mereces isto" ressoa muito mais do que "o melhor pelo melhor preço". A questão é se a comunicação da marca consegue carregar esse peso emocional, ou se está demasiado ocupada a falar de funcionalidades.
O social que realmente liga
As redes sociais estão a passar por uma crise de identidade. Os utilizadores estão exaustos do performativo, do polarizado e do promocional. Estão a migrar do espaço público para o privado, a preferir comunidades pequenas e densas a audiências grandes, vazias e sem significado.
O relatório introduz o conceito de Social health como nova dimensão estratégica: as marcas mais valiosas em 2026 não serão as mais compradas, mas as que mais pertença criam. A ligação humana passa a ser tratada como pilar de bem-estar, tão essencial como saúde ou nutrição. Para as equipas de social media, isto implica uma mudança de métricas: o KPI já não é o reach, é a ressonância. Não são os followers, são os amigos. A pergunta que cada marca deve fazer é "quantas pessoas querem voltar", no lugar de "quantas pessoas nos viram".
A mensagem para quem trabalha marcas
O que o relatório deixa claro, em 100 tendências distribuídas por 10 setores, é que 2026 não é um ano para afinar a estratégia existente. É um ano para questionar os pressupostos em que ela assenta. E aí sim, afinar o que tiver que ser afinado.
O consumidor está simultaneamente mais cético e mais disponível do que nunca. Mais difícil de impressionar, mas mais leal quando se sente genuinamente visto. Mais atento à hipocrisia, mas surpreendentemente disposto a gastar, desde que o que compre lhe faça sentido emocional. Para gerar emoção, é preciso criar experiência.
A palavra que resume tudo isto é coragem. Coragem de ser verdadeiro, de mostrar o processo, de tratar os clientes como parceiros e não como audiência, de preparar a marca para um futuro em que as regras do comércio estão a ser reescritas em tempo real.
Na Papori, é exatamente disso que falamos quando dizemos que comunicação tem de ter propósito. Não é uma frase bonita. É a única estratégia que sobrevive ao que está a vir.
The Future 100: 2026 é um relatório anual de tendências de consumo baseado numa pesquisa com 15.639 adultos em 16 mercados, realizada entre setembro e novembro de 2025.
Autora: Fernanda Maron
Agência: Papori - Get Social
Data: Abril 26